quinta-feira, junho 18, 2009

Há como que duas margens: atravessando a ponte, enredamos por sequências de imagens que como lianas fazem baloiçar. A oscilação de ser, uma vida mental de pesquisa e diluição. Onde um grande peso desce e esmaga a noção de realidade, subvertendo os mais recentes planos por articular. Enquanto houver fantasia, enquanto houver sons e côres, a alma recatada subsiste e obedece. Servo temporário do apelo escondido à sombra da imaginação, o caçador furtivo habita a ilha deserta que há no outro lado de um rio.

Palette e mistura

Glória vã na fé,
vã fé na descrença,
sabor a desavença,
açúcar no café,

palmilho incerteza
sem saber o porquê
do poema que se lê
debruçado na mesa

que tem pernas em vê;
inspiração que retorna
sem que haja para o quê;

sem que haja para um onde,
abstracção que se entorna
no mistério que ela esconde.

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Tinto e desafio

De absurda direcção
escreve-se hoje o caminho;
da côr do copo de vinho
tinge-se o coração.

Tudo aquilo que falta
o Adamastor se soergue;
do mar imenso o icebergue,
um frio de alma que assalta

e em silêncio se exalta
co' o marujo sem rumo;
e o mar azul sobressalta

à luz trémula da vida
a viagem sem aprumo
e o barco de côr garrida.

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Tempestade e bonança

Do azul perpétuo
os mares revoltos;
cabelos soltos
na peça em que actuo.

A sede é de Roma,
e disto e daquilo,
o viscoso do Nilo,
de Veneza o aroma,

paisagens que a mente
desenha a côr quente
no cenário que traça.

Quando a tarde passa
deixa a brisa, rente
ao corpo em alma ausente.

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Ser e não-ser

Um desvio pela maresia;
de Norte ou Sul insciente,
é de novo intermitente
a estrada, que embacia.

Nuvens e soalho,
ponto e contraponto,
ora esperto, ora tonto,
cartas de um baralho -

renasce a antiga cruzada,
a pessoa em morna dança
numa certa encruzilhada

que jamais é consumada;
consciência que se entrança
em seu torno, sem ser nada.

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Somatório

Após sobrevoar vestígios de maré, poisa no parapeito da alma a noção matemática de que há beleza na solução mais sucinta e simples possível. E nisto a equação ondulada que rege as formas faz também sorrir, levemente, as vibrações implícitas. Como uma flauta que trina persuasora uma melodia nocturna, à qual recaio em fascínio. Contemplo, silente como uma fórmula.